Tentativa e erro

Desisti de contar quantas vezes já tentei manter um blog ativo. Foram muitas tentativas sem sucesso, desde o primeiro dia em que escutei o barulho irritante, mas amado por todos, da conexão discada e adentrei na internet. Enganava a mim mesma, criava um novo domínio e escrevia animadamente todos os dias. Dizia “agora vai!”. Não ia, claro. A empolgação e dedicação duravam umas três semanas, um mês no máximo.

Pensando nisso, cheguei a conclusão de que a minha vida seguia a mesma lógica dos blogs abandonados. Sempre o eterno ciclo de tentar, errar, voltar a tentar, acreditar que vai dar certo e errar de novo. O que me colocava automaticamente no primeiro lugar no ranking mundial dos perdedores, visto que, na minha visão dramática e “meio copo vazio” de mundo, eu sempre me iludia e nunca acertava.

Até que tive uma epifania maravilhosa: acertar, nem sempre, significa alcançar o objetivo planejado inicialmente. Muitas vezes, o acerto acontece quando a gente consegue enxergar a situação de forma mais ampla e perceber que o “erro” pode não ser algo ruim, mas sim um final alternativo. E tem mais, esse desfecho diferente da história, pode ser até melhor do que aquele que estava no roteiro original*.

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MIND BLOW!

*como dizer isso e não lembrar do filme “Efeito Borboleta” que possui dezenas de finais alternativos, todos melhores do que o oficial?

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Fantasmas

Planejar passeios mirabolantes para o fim de semana, mas preferir dormir até tarde. Fazer guerrinha de água num apartamento com chão de taco (e ter que limpar tudo depois). Abraçar bem forte para sentir as batidas do coração um do outro. Brincar de corrida de cavalinho em plena Avenida Paulista. Falar bobagem na madrugada, enquanto você fingia ouvir, mas na verdade já estava dormindo. Fingir brigas feias em público só para observar a reação das pessoas. Transar em lugares totalmente inapropriados, ter medo, mas não parar. Fazer cafuné no cabelo mais macio que a minha mão já sentiu (mesmo sendo lavado com sabonete). Dançar esquisito nas baladinhas hipster e fazer todo mundo passar vergonha. Usar abraços e beijos como disfarce para suas fotos de desconhecidos na rua. Chorar juntos.

Ainda lembro.

Fracasso

Coloco em seus ombros a responsabilidade pelos meus dias cinzas e vazios, mas no fundo sei que o fracasso é algo que alcancei sozinha. Não falo mais de amor, me privo de viver e sinto medo todos os dias. A culpa? Como sempre, toda minha.

Tudo o que vivemos foi baseado na sua existência, me anulei para me tornar uma coadjuvante do filme em que você é o ator principal. Por anos fiz a escolha de não ser mais eu mesma, mas como posso te culpar por algo que eu já sabia que ia terminar mal?

Cobrei promessas que nunca serão cumpridas, mas agora entendo que não posso pedir mais do que consigo oferecer. Não é justo exigir que você me ame e permaneça ao meu lado, se o meu desespero e minha imaturidade te sufocaram e só te fizeram sofrer.

Não é fácil encarar a realidade, olhar no espelho e finalmente notar o que agora parece tão óbvio, mas antes não estava claro. Sou vazia, não vejo sentido em nada que faço, estou tão morta que meu corpo se desfaz a cada passo dado. Sou um fracasso.

Ausência-Presença

Um desconhecido em um grupo sobre música no Facebook me indicou uma banda. Ouvi e gostei. Procurei mais canções e descobri a música “There’s That One Person You’ll Never Get Over No Matter How Long It’s Been”. Esse título genial (que inclusive já está no meu “Top 10 Coisas que Eu Gostaria de Ter Feito”) me fez ter uma epifania: a minha vida tem girado em torno de uma ausência-presente.

Vou explicar: sabe quando alguém não faz mais parte da sua vida, mas acaba estando mais presente do que quando era do seu convívio, porque, na tentativa desesperada em esquecê-la, você se lembra dela todos os dias, mesmo que seja com pensamentos do tipo “vai, sua otária, supera o Cicraninho logo!” e isso acaba se tornando um vício mental do qual você não consegue se livrar independente do tempo que tenha passado? Pois é.

Fiz um balanço dos meus assuntos com os amigos mais chegados e com a minha mãe, das minhas postagens nas redes sociais e dos meus textinhos mal escritos no diário de cabeceira e acho que 75% desse “blá, blá, blá” todo era referente a tal pessoa. Sim, eu tenho uma Pessoa Não-Esquecível™ para chamar de minha.

Já perdi as contas de quantas vezes escutei “supera isso”, “a vida segue” ou, a melhor de todas, “já passou da hora de esquecer”. Eu já me achei burra por não entender essa lógica de superação que parece tão simples aos olhos dos outros e para mim soa como um discurso em eslovaco sem tradução simultânea. Mas agora entendi: eu não vou esquecer.

Que fique claro, isso não é uma ode à fossa. Eu só entendi que tenho uma gaveta mental muito ampla e sou metódica e chata até mesmo na minha mente. Todas as minhas memórias estão muito bem guardadas, catalogadas e prontas para serem resgatadas a qualquer momento (segura essa brisa virginiana da madrugada!).

Eu encontro partes das pessoas que passaram pela minha vida em cada detalhe, não somente em fotos, presentes e memórias óbvias. Fugir dessas lembranças pode ser um processo mais doloroso do que o próprio sofrimento por conta do término traumático. Acho (e quero acreditar) que a ordem natural das coisas vai, aos poucos, transformar essas lembranças em coisas positivas (ou suportáveis, vai). Mas esquecê-las, jamais!

A moral desse lenga-lenga todo é: não sei se existe mesmo essa tal superação que a galera cuca fresca prega, mas acredito que cada pessoa funciona a sua maneira e ao seu tempo. O lado bom é que eu descobri o meu funcionamento. O lado ruim é que ele talvez não seja o mais simples. Mas é quem eu sou, então está tudo bem.

Confissões da madrugada

1. Coleciono alguns amores platônicos na internet. Geralmente são pessoas da ~vida real, amigos de amigos ou que frequentam os mesmos lugares que eu. É engraçado/constrangedor encontrá-los pessoalmente, porque sinto como se meu segredo de stalker maluca fosse ser revelado a qualquer momento.

2. Não costumo xingar ninguém, por falta de coragem e porque sempre me sinto culpada depois. Mas todos os dias, xingo mentalmente, com palavras de baixíssimo calão, o cara do carro dos ovos que passa na minha rua às 08h, grita “o carro dos ovos chegooou!” e me acorda do meu merecido Sono dos Desempregados™. (Desculpa, mãe!)

3. Sei cantar todos hits do Post-Forró (esses forrós moderninhos, com teclados safados e vocais desafinados). Incluindo “Samara”, “Porque Homem Não Chora” e “Eu tô Pegando a Tua Irmã”. Adquiri esse conhecimento graças ao bailinho que rola todos os domingos na padaria aqui de Taipas.

4. Sempre invento histórias malucas e estapafúrdias sobre a minha pessoa para desconhecidos que insistem em puxar assunto em momentos que você não quer conversar, mas não tem como fugir da situação (ex.: fila de banco, ônibus lotado, etc). Eles sempre acreditam, acho que sou convincente.

Medo*

Medo: sentimento necessário para a sobrevivência humana. A gente nasce e morre com ele. Na infância, temos medo do escuro, do bicho papão, de ficar sem os pais. Crescemos e ele continua ao nosso lado. Medo de perder a virgindade, de não passar no vestibular, de tornar-se adulto. E, com o passar do tempo, esse sentimentozinho de merda se torna cada vez mais sofisticado.

Experiências ruins criam na gente uma espécie de “anticorpos do medo” que, frente a uma nova situação parecida com a anterior, entram em ação para nos defender de uma possível ameaça. Precisamos disso em certos momentos, claro. Mas como saber qual é a hora certa para despir-se do medo e enfrentar os perigos da vida de peito aberto? Como saber se aquela “possível ameaça” não se trata de uma incrível nova possibilidade?

Difícil é viver todos os percalços da vida, pisar em tantos pedregulhos, tomar tantas bordoadas e não se tornar apenas um corpo sem vida preenchido pelo receio de se ferir novamente.

*escrevi esse texto em janeiro, ele estava perdido por aí, achei bom publicá-lo aqui, para poder ler sempre que precisar (ou seja, todos os dias).

Meu maior exemplo feminista

Apesar de sempre levantar a bandeira do feminismo e saber da importância dele na minha vida, muitas vezes eu senti que ele estava muito distante de mim. Longe, quase inalcançável, dentro de um livro empoeirado guardado em uma prateleira alta de alguma biblioteca. Nos últimos tempos, li muita coisa, aprendi novas teorias, conheci mulheres que me mostraram como o feminismo está presente em nossas vidas em todos os momentos. Mas só agora percebo que o feminismo na mais pura forma está (e sempre esteve) muito perto de mim, morando comigo na mesma casa.

Está nela que, sem nenhuma teoria, sem ter frequentado universidades e sem ter lido as grandes escritoras feministas, na simplicidade dos seus próprios pensamentos me ensinou que eu posso ser o que eu quiser, que devo seguir as minhas próprias vontades e correr atrás da minha felicidade, ao invés de buscá-la em outras pessoas. Que não preciso estar acompanhada de um homem para ser completa, que devo primeiro amar a mim mesma, que posso escolher ficar sozinha para sempre ou casar e ter 5 filhos, tanto faz, o que importa é estar no comando da minha vida e ser feliz sempre. Então, me desculpem Simone de Beauvoir e Virginia Woolf, mas o meu maior exemplo de mulher, meu maior exemplo de feminista é a minha mãe.